quinta-feira, 10 de novembro de 2011

COMUNIDADE EUROPÉIA COMPRA TEMPO ATÉ A PRÓXIMA RODADA DE PÂNICO

Mailson da Nóbrega* (foto), colaborador do Radar Econômico, chama atenção para uma análise da revista “The Economist” segundo a qual o acordo entre líderes europeus e bancos para perdoar metade da dívida da Grécia, “na melhor das hipóteses, compra tempo para a próxima rodada de pânico”.

Leia abaixo comentário de Mailson:

“Eram 4 da manhã em Bruxelas na quinta-feira (27), diz a revista ‘The Economist‘, quando se soube finalmente que os líderes europeus haviam chegado ao ‘amplo acordo’ para salvar o euro. Ao contrário da reação dos mercados, que comemoraram o acordo, a revista não é tão otimista. Ainda tem muita água a rolar, sugere, antes que tudo se resolva e o euro possa ser considerado definitivamente salvo. Para se ter uma ideia do que foi acordado, a ‘Economist’ cita declarações de diplomatas que participaram da reunião. ‘Cremos que chegamos a um acordo, mas não estamos certo do que significa’, disse um dos negociadores.
Os líderes se esforçaram por entender a complexa engenharia financeira que eles estavam sendo solicitados a aprovar. O objetivo, diz a revista, “seria transformar seu inadequado estilingue financeiro na  bazuca” que o mundo pedia que eles armassem. Mas, ‘na madrugada de 27 de outubro, eles orgulhosamente anunciaram um amplo conjunto de medidas adicionais que refletem nossa forte determinação de fazer o que for necessário para vencer as atuais dificuldades’.
A revista reconhece que ‘o resultado foi melhor do que muitos esperavam’. Uma semana antes, o encontro parecia condenado, ‘com Angela Merkel, a chanceler alemã, rejeitando a pressão de Nicolas Sarkozy, o presidente francês, para reforçar o fundo de salvamento da zona do euro, permitindo que o Banco Central Europeu (BCE) lhe fizesse empréstimos’. Mesmo assim, pergunta a ‘Economist’, o acordo é bom? Afinal, esta foi a terceira ‘ampla solução’ preparada este ano pela zona do euro. A revista não está certa disso. ‘Na melhor das hipóteses, o acordo compra tempo para a próxima rodada de pânico.’
A boa notícia, prossegue, ‘é que a zona do euro despertou da mentira segundo a qual a Grécia poderia um dia pagar sua dívida’. Uma avaliação feita recentemente pela ‘troica’ (BCE, FMI e Comissão Europeia) mostrou que as medidas de austeridade ‘empurraram a Grécia para uma recessão maior do que a esperada’. Este ano, espera-se que o PIB encolha 5,5% e o país não voltará a crescer antes de 2013. Além disso, as reformas destinadas a promover o crescimento estão sendo implementadas muito lentamente, ao tempo em que as projeções para a economia europeia têm piorado, tornando mais difícil a situação grega. ‘Em consequência, o relatório constatou que sua dívida pública poderia atingir o pico de 186% do PIB em 2013, em lugar dos 160% previstos há apenas três meses, mesmo com o desconto de 21% concedido pelos credores privados’.
No final das negociações desta quinta-feira, os credores concordaram em ampliar o desconto para 50%. O acordo com os bancos é tido como ‘voluntário’, mas não é certo que isso vai ser aceito pela Associação Internacional de Swaps e Derivativos. Caso contrário, o acordo seria considerado um ‘evento de crédito’, disparando a necessidade de cumprimento das obrigações de pagamento contidas nos derivativos que garantem a cobertura das respectivas dívidas. Esses derivativos são uma espécie de seguro contra o calote. Os governos e o BCE estão determinados a evitar que se configure esse ‘evento de crédito’, temendo que isso provoque uma catástrofe financeira semelhante à da quebra do banco Lehman Brothers em 2008.
Mesmo que a zona do euro consiga evitar essa catástrofe, isso seria uma vitória de Pirro, afirma a revista. De fato, se os investidores perceberem a saída como artificial, tenderão a demandar prêmios maiores para comprar títulos europeus. ‘Assim, perversamente, ao livrar os derivativos da Grécia do evento isso poderia aumentar o custo de outros países’. ‘O perigo de contágio continua. Se os detentores de títulos gregos podem incorrer em perdas em relação a papéis que antes consideram seguros, o que pensarão os que investiram em títulos italianos e espanhóis?’ O canal óbvio, diz a revista, seria o sistema bancário. ‘Daí por que os 27 membros da União Europeia – de dentro e de fora da Zona do Euro – concordaram em forçar seus bancos a elevar seu capital e assim reduzir o risco de colapso’.
Um grande erro do plano, diz a ‘Economist’, é o calendário de eventos. ‘Os bancos terão quase nove meses para alcançar os novos níveis de capitalização, ostensivamente permitindo que eles levantem capital por si mesmos, mediante redução de dividendos e bônus, e venda de ações. Ocorre que poucos investidores desejam comprar essas ações, mesmo que estejam baratas, dado o risco percebido de uma série de calotes na Europa. O risco é de os bancos tenderem a reduzir os seus empréstimos e não aumentarem o capital.’
O artigo da ‘Economist’ lista outros problemas não resolvidos e mostra que está de acordo com a ideia de Sarkozy, de permitir que o BCE compre papéis públicos. Os países da zona do euro não teriam as condições financeiras para continuar salvando países em dificuldades, até porque a Itália pode ser o próximo.
Sua conclusão é de que as novas armas para enfrentar a situação vieram com um preço político: ‘O monitoramento mais estreito dos orçamentos e das políticas econômicas nacionais, particularmente nos países necessitados de maior ajuda’.
Em resumo, a visão da ‘Economist’ é a de que os europeus podem ter pulado uma grande fogueira, mas a solução final ainda pode passar por momentos de dificuldades e pânico. Mesmo assim, acredito, os mercados têm razão em respirar aliviados.”
* Mailson da Nóbrega foi ministro da Fazenda (1988 a 1990) e hoje é sócio da Tendências Consultoria Integrada e membro de conselhos de administração de empresas no Brasil e no exterior. Ele colabora com o Radar Econômico comentando artigos e reportagens relevantes da imprensa internacional.

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