sábado, 13 de novembro de 2010

O NOVO BRASIL DO PT É VELHO DEMAIS! OU ESTE PAÍS AMA QUEM O ESPOLIA

Blog do Reinaldo Azevedo
Análises políticas em um dos blogs mais acessados do Brasil

Eu sei que hoje é sábado e que há um feriado pela frente etc e tal. Poderia tratar de algumas ligeirezas, mas vocês sabem como amo a vigilância democrática, né? “Estamos construindo um novo Brasil”, certo? Trago um assunto que tem o cheiro inequívoco do velho Brasil, de um país verdadeiramente ancestral. Vamos ver.

O governo Lula sataniza as privatizações feitas no setor elétrico, e a presidente eleita, Dilma Rousseff, gosta de exibir seus feitos na área, especialmente os imaginários. Na campanha eleitoral, por exemplo, foi apresentada como aquela que livrou o Rio Grande do Sul da crise de energia de 2001, já que era secretária da área. Em três linhas, deu-se o seguinte: o estado não tinha problemas de reservatório de água nem estava conectado com o resto do sistema e, por falta de linhas de transmissão, não pôde socorrer o resto do país. Como se nota, um feito realmente notável de Dilma, não é mesmo!? Mas isso é mera ilustração neste texto.

Anteontem, Claudio J. D. Sales, do Instituto Acende Brasil, escreveu um artigo no Estadão que merece a nossa leitura. Expõe, na sua crueza, uma das mazelas do setor, aquele que é acompanhado de perto pela “Mãe do Brasil” e do qual, informa-se na imprensa, ela pretende continuar cuidando pessoalmente. De saída, vocês notarão o seguinte: o fato de a Celg, a empresa goiana de distribuição de energia, ser uma estatal custou aos brasileiros, numa penada só, a bagatela de quase R$ 4 bilhões! Gastança de milhões é coisa do velho Brasil. No novo, tudo se mede aos bilhões.

O busílis é o seguinte: o governo federal resolveu salvar a estatal Celg com um empréstimo da Caixa Econômica Federal ao estado de Goiás no valor de R$ 3,7 bilhões. Um troço, assim, mamão com açúcar: juro de 6% ao ano, 20 anos de prazo para pagar e dois anos de carência. Desse total, R$ 1,7 bilhão servirá para quitar dívida do estado com a empresa, e R$ 2 bilhões entram no caixa da estatal como aporte de capital. A Eletrobras meterá outros R$ 140 milhões na companhia, elevando a sua atual participação, que hoje é de 6%, e ganhando um assento na diretoria. O acordo foi feito na boca da urna, e tanto Dilma como o candidato do Planalto ao governo do Estado, Iris Rezende, receberam o apoio do atual governador, Alcides Rodrigues. Não adiantou: elegeu-se o tucano Marconi Perillo.

Alguma coisa contra Goiás? Ao contrário! Tudo a favor. A questão é saber o que levou a Celg a necessitar da dinheirama. A resposta, numa empresa que fornece esse tipo de serviço, é uma só: gestão desastrosa em razão da politicagem. E é para isso que serve boa parte das estatais. Não se trata aqui de debater o caso da empresa goiana em particular. Até porque, de fato, não é a única. Sales lembra: “As distribuidoras de energia elétrica geridas pela Eletrobrás (Amazonas Energia, Ceron, Eletroacre, Ceal, Cepisa e Boa Vista) são alvos históricos de interferência política e estão entre as que apresentam o pior desempenho no setor elétrico. Os seus custos operacionais superam em 36% o valor que a Aneel estabelece como razoável. E a rentabilidade dessas empresas, entre as mais baixas do setor, ameaça a própria sustentabilidade das concessionárias.”

A partir de 1º de janeiro, Marconi Perillo (PSDB), que o Planalto tentou derrotar, assume o governo do Estado. Pode, em tese, interferir para mudar o rumo e o destino da Celg. Mas também ele chega com tais e tantas obrigações políticas, porque é essa a natureza do jogo. Havendo amparo legal para isso, deveria fazer uma licitação, concorrência ou sei lá o quê para tentar dar uma gestão profissionalizada à empresa, tirando-a da barafunda em que se encontra.

Trago aqui o caso da Celg porque, nos últimos anos, em razão do marketing agressivo das três grandes estatais federais — Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal —, vai se consolidando a idéia de que estatismo é sinônimo de eficiência. Não é! As exceções não conseguem ocultar a regra: são, isto sim, retratos do empreguismo, da ineficiência, do compadrio político, da lambança. Vocês já pararam para pensar que praticamente inexiste propina nos negócios feitos entre empresas privadas? Certamente há casos de espionagem industrial; diretores de compra e de venda acabam levando unzinho por fora sem que o patrão saiba… Além dse ser dinheiro privado, é troco de pinga perto do que acontece na relação “empresa privada-setor público”. Os países mais corruptos do mundo são aqueles em que há mais empresas públicas. Quanto mais estado, mais sem-vergonhice.

Não obstante, e eu não ignoro tal fato, toda a metafísica influente aponta para a direção oposta. É uma guerra cultural que os partidários de um estado eficiente e enxuto estão perdendo, a despeito dos bilhões que saem dos cofres públicos para cobrir os rombos feitos nas empresas estatais. E não venham me falar do Banco Panamericano, hein? A mesma CEF que emprestou à Celg viu naquela ratoeira uma grande oportunidade de negócios e enfiou lá R$ 700 milhões!

Talvez o país ainda volte a debater o que interessa um dia. Em 2010, assistimos à terceira campanha eleitoral seguida em que se cantaram as glórias do estatismo, este mesmo que leva quase R$ 4 bilhões com a facilidade com que se diz “hoje é sábado”. Bilhõezinhos, assim, leitor, como se fossem uma coisinha besta, para a qual já não se dá importância. http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/

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