quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

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ACONTECIMENTOS MUNDIAIS INTRIGANTES:

Noruega inaugura "cofre" global de sementes no Ártico 26/02/2008 - 08h35

LETÍCIA FONSECA-SOURANDER

Colaboração para a Folha de S.Paulo, em Bruxelas

Bem perto do pólo Norte, uma montanha gelada guarda o tesouro genético do planeta. Trata-se do projeto mais ousado de preservação da vida vegetal, inaugurado nesta terça-feira no arquipélago norueguês de Svalbard.

O objetivo é conservar até 4,5 milhões de amostras de sementes e 2 bilhões de sementes de todas as espécies cultivadas pelo ser humano. Esse patrimônio, mantido em segurança máxima, estará protegido de catástrofes naturais e até mesmo de guerras nucleares.

É o último refúgio das lavouras do mundo", diz Cary Fowler, diretor da Global Crop Diversity Trust, organização, criada pela FAO (órgão das Nações Unidas para agricultura), que coordena o projeto juntamente com a Noruega.

As primeiras amostras de sementes serão colocadas nesta terça-feira no Banco Internacional de Sementes de Svalbard, durante a cerimônia de inauguração, pelo premiê norueguês, Jens Stoltenberg, e pela ambientalista queniana e Prêmio Nobel da Paz, Wangari Maathai. O projeto já recebeu cerca de 100 milhões de sementes doadas por cem países.

O Brasil deve enviar em breve a sua contribuição, por meio do do Cenargen (Centro Nacional de Recursos Genéticos), da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).

"A Noruega está orgulhosa por ter um papel central ao proteger não apenas sementes mas os alicerces da civilização humana", disse Stoltenberg.

A escolha de abrigar o bunker ecológico nesse remoto arquipélago acima do círculo polar Ártico não foi por acaso. Além de ter clima e geologia ideais, Svalbard é distante o bastante para manter em segurança a herança genética vegetal.

A nova Arca de Noé fica escondida no final de um túnel de 120 metros, escavado em rochas geladas a 70 metros de profundidade e será mantida a -18ºC. Essa caverna de alta tecnologia, construída nos últimos 11 meses numa montanha de Longyearbyen --uma das cidades do arquipélago--, é equipada com portas de aço blindadas, câmeras e detectores de movimentos e será monitorada remotamente da Suécia.

As mudanças climáticas foram inicialmente o que impulsionou o projeto, mas não foram o único motivo. Nos últimos anos, mais de 40 países tiveram os seus bancos de sementes destruídos: em guerras como no Iraque e no Afeganistão, ou em inundações e outros desastres ecológicos, como o recente tufão nas Filipinas.

Transgênico não entra

A construção do Banco Internacional de Sementes de Svalbard custou US$ 9 milhões à Noruega. O local do banco resiste a atividades vulcânicas, sísmicas e ao aumento do nível do mar. A área tem baixo nível de radiação, fundamental para a manutenção do DNA das plantas. No frio em que será mantido o banco, sementes de trigo, cevada e ervilha podem sobreviver mais de 10 mil anos.

Elas só poderão ser usadas, porém, quando as cópias originais forem perdidas. De acordo com estatísticas da FAO, no último século, 75% da diversidade genética de centenas de milhares de espécies de plantas desapareceu. Dos 7.000 tipos de plantas já cultivadas pelos seres humanos, só 150 espécies estão no cardápio hoje.

Quando for a hora de fechar as portas, a arca de Svalbard entrará em hibernação, como os ursos-polares que habitam o arquipélago. E a biodiversidade agrícola mundial vai estar sã e salva nas entranhas geladas do extremo norte.

O grifo é meu: ’’Será que estão escondendo alguma coisa de nós pobres mortais?’’

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